Organizar e fazer valer o senso de urgência

O senso de urgência é fundamental. Mas é preciso organização para que a vontade de fazer não acabe por atrapalhar mais que ajudar. Por isso, para a Entrevista Corporativa deste mês, o UniverSeg ouviu Mario Persona, consultor e autor de livros que falou sobre como podemos fazer nosso tempo render mais e melhor.

Persona lembra que o progresso é inerente ao ser humano, e não podemos descartar os pequenos progressos que fazemos no dia a dia, até nas tarefas mais banais. Mas isso depende da iniciativa e criatividade de cada um. Pessoas criativas sempre inventam novas maneiras de racionalizar o uso do tempo

Data da publicação: 12/08/2014
  • UniverSeg Como devemos realizar a organização de nosso tempo?

  • A primeira coisa é entender que não organizamos ou administramos o tempo, mas as tarefas que executamos dentro do tempo que temos, o qual é igual para todas as pessoas. Outra é reconhecer que diferentes ferramentas de organização e administração de tarefas funcionam para diferentes pessoas. Há quem precise de um software para organizar suas tarefas, metas e compromissos, enquanto outros são igualmente eficazes em seus resultados anotando tudo em bilhetinhos ou na palma da mão. Se uma passasse a usar as ferramentas da outra, provavelmente teríamos duas pessoas gastando mais tempo para fazer as mesmas coisas, uma por precisar aprender os meandros do sistema e a outra se perdendo por falta de um controle mais preciso de seus compromissos.

  • UniverSeg É possível perceber se nosso tempo está sendo bem aproveitado?

  • As pessoas têm diferentes percepções do tempo, portanto só é possível saber se o tempo de alguém está sendo bem aproveitado dentro de seu perfil de percepção ou da cultura onde a pessoa está inserida. O lugar onde a pessoa vive também tem grande impacto no uso do tempo. É comum alguém da capital passar alguns dias no interior e achar que ali as pessoas fazem tudo mais devagar, mas o que acontece é que na capital ela perde quatro horas de seu dia dentro do carro, enquanto o habitante do interior tem ao seu dispor quatro horas a mais para fazer suas tarefas com maior tranquilidade. Duas pessoas que passam o dia na praia podem chegar a diferentes conclusões sobre o aproveitamento do tempo, uma achando que perdeu um dia que poderia ser gasto em algo lucrativo e a outra achando que ganhou um dia para recarregar suas baterias e deixála pronta para o trabalho.

  • UniverSeg Se percebermos que aproveitamos mal o tempo, o que fazer?

  • Podemos avaliar esse aproveitamento do ponto de vista emocional ou de resultados. Um vendedor pode chegar ao final do dia com muitas vendas realizadas e um bom dinheiro no bolso. Mas se ele vende apenas um tipo de produto, e sua venda é do tipo tomaládácá, sem qualquer negociação ou interação com o cliente, o grande volume de vendas será percebido como estresse. Já o vendedor que a cada venda precisa negociar e conquistar terreno palmo a palmo terá uma impressão diferente de seu dia, mesmo que no final ele termine com um lucro inferior ao do outro vendedor. Para ele, a venda realizada tem um gostinho de bola no gol e é motivo de comemoração. No final do dia ele estará cansado, porém recompensado, financeira e emocionalmente. Uma boa ideia para o primeiro vendedor seria incluir em seu dia algo diferente. Pode ser um caminho diferente para o trabalho ou de volta ao lar, uma comida diferente, ligar para algum amigo que não vê há muito tempo ou até escovar os dentes com a outra mão. Qualquer coisa pode criar novas sinapses em seu cérebro e servirá como uma lufada de ar fresco em sua aborrecida rotina. Alguém poderia argumentar que se ele está terminando o dia com o bolso cheio isto é suficiente, mas não é. Rotinas criam frustração, pois o ser humano precisa de desafios.

  • UniverSeg O senso de urgência é uma característica bem difundida entre os profissionais?

  • Nem sempre. Muitos profissionais enxergam o trabalho como fim e não como meio. Então passam a acreditar que sua falta de resultados é azar, pois estão preenchendo suas horas diárias trabalhando com afinco. É preciso entender que o trabalho é apenas o meio para se atingir um fim, e se eu transformo o meio em fim tem algo de muito errado com meu modo de trabalhar. Um bom planejamento pode corrigir isto e tornar o profissional mais produtivo, fazendo as mesmas coisas em menos tempo e ganhando tempo para assumir novos trabalhos ou até mesmo para melhorar sua qualidade de vida. O senso de urgência pode também ser ludibriado por nossa má avaliação das tarefas. Por exemplo, aquela conta de dez reais que posso pagar pelo internet banking e está sobre minha mesa pode ficar ali dias seguidos sem que eu dê muita atenção. Afinal, são apenas dez reais e tenho responsabilidades para cumprir que são urgentes e com valores mais altos. Então eu acabo me esquecendo de pagar no prazo e sou obrigado a pegar o carro, enfrentar trânsito, procurar lugar para estacionar, ficar um bom tempo na fila da agência bancária só para pagar aquela mísera conta de dez reais. Aquilo que não tinha qualquer urgência em minha concepção acabou consumindo um tempo precioso e me obrigando a passar para segundo plano atividades mais importantes.

  • UniverSeg Os líderes da empresa devem orientar seus subordinados para organizar melhor as atividades e aproveitar melhor o tempo?

  • Costumo fazer palestras e treinamentos de administração do tempo e percebo que existe uma grande necessidade de este tema ser levado para dentro das empresas. Algumas dicas simples podem tornar o tempo do profissional mais produtivo e ainda ter um efeito em seu equilíbrio emocional. Enquanto alguns precisam efetivamente aprender a planejar suas tarefas e dar prioridade às coisas importantes, outros precisam simplesmente entender o tempo para passarem a abordálo de um diferente ponto de vista, o que acaba por incrementar sua percepção do tempo e reduzir seus níveis de estresse.